Da Cruz à Glória da Ressurreição!
Parte I (Do I Domingo da Quaresma a
Domingo de Ramos)
Uma caminhada para a vivência da
Quaresma e do Tempo Pascal 2013
“A questão, então posta por aqueles que O escutavam, é a
mesma que colocamos nós também hoje: «Que havemos nós de fazer para realizar as
obras de Deus?» (Jo 6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: «A obra de Deus é
esta: crer n’Aquele que Ele enviou» (Jo 6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo é o
caminho para se poder chegar definitivamente à salvação.” (Bento XVI – Porta
Fidei nº3)
I –
A motivação da dinâmica
Este parágrafo da Porta Fidei, Carta Apostólica onde o
Papa Bento XVI proclamou o Ano da Fé, servir-nos-á de mote para a caminhada que
percorreremos na Quaresma e na Páscoa deste ano.
Quando anunciou o Ano da Fé, o Papa Bento
XVI afirmou: “Este será um momento de graça e compromisso por uma conversão a
Deus cada vez mais plena, para anunciar a nossa fé n’Ele e para anunciá-lo com
alegria ao homem de hoje.” A Quaresma é um tempo privilegiado para viver este
processo de conversão que nos levará ao encontro de Jesus ressuscitado. Em
quarta-feira de cinzas, quando recebermos na nossa fronte, o sinal da cinza,
escutaremos “Convertei-vos e acreditai no Evangelho”. Este é o grande repto lançado ao homem, desde sempre, e que pode
ser, também, o resumo de todos os propósitos e desafios deste Ano da Fé.
O Ano da Fé recorda-nos que o
caminho que fazemos durante toda a vida é o de, deixarmo-nos iluminar por Jesus
Cristo. A escuridão da Cruz é a condição imprescindível para se chegar à luz
que emana da Ressureição de Jesus Cristo. Por isso, parece-nos oportuno pensar
e apresentar uma só dinâmica de vivência para a Quaresma e para o Tempo Pascal,
para que seja percetível que o caminho dos homens para Cristo é um só: Cruz e
Glória são um só itinerário para o encontro com o Cristo Ressuscitado, dom da
Vida Nova e da Redenção.
A vida em Jesus ressuscitado, é
uma conversão permanente, uma luta diária, para que a fragilidade humana se
molde cada vez mais à vida no Homem Novo. Acreditar n’Aquele que o Pai enviou é
ser-se capaz de continuamente procurar “tornar cada vez mais firme a relação
com Cristo, Senhor, dado que só n’Ele temos a certeza para olhar o futuro e a
garantia dum amor autêntico e duradouro” (Porta Fidei nº 15). Acreditar em Jesus Cristo, e
consequentemente, viver n’Ele e por Ele, implica também uma atitude de
persistência e permanência. A Quaresma é a oportunidade de parar e repensar a
vida, de recapitular tudo em Cristo, de redescobrir as razões da nossa
esperança, de renovar o entusiasmo de crer em Jesus Cristo, para
n’Ele crer e permanecer.
A vida corre a uma velocidade estonteante,
que por vezes somos por ela ultrapassados. Tão depressa que nos esquecemos do
essencial, para ficarmos na mediocridade e em tudo o que não é viver. Mas a
vida é uma sucessão de quedas e obstáculos, onde vivem apenas aqueles que são
capazes de se levantarem tantas vezes quantas caírem. Permanecer é a maior das
urgências. Permanecer na persistência, na busca constante de algo mais que nos
transporte além dos obstáculos, além dos horizontes. É mais fácil abandonar
(cair para nunca mais levantar) do que permanecer. Porque permanecer exige
trabalho, exige esforço, sacrifício e entrega. Permanecer é reinventar a vida,
transformar o velho e rotineiro em novidade, é transformar o quotidiano em
realidade nunca antes experimentada, é romper a monotonia, rasgando as nuvens
do sempre igual. Ama mais aquele que tem maior capacidade de permanecer, de
ficar, de destruir as palavras que feriram, que magoaram, para as converter em
possibilidades de vida nova e em plenitude. Ama mais aquele que melhor sabe
acolher a raiva do outro para depois com ele navegar nos mares serenos da vida.
Ama mais aquele que reconhece os seus gestos duros para depois os transfigurar
em gestos de proximidade e ternura. Permanecer é a arte de amar e viver, é a
sabedoria da vida! Assim, a caminhada que propomos para a vivência da Quaresma
e Páscoa deste ano, não é mais que uma redescoberta do Credo, símbolo da Fé da
Igreja, como pilar e fundamento da vida cristã. O Credo, não é apenas um elenco
das verdades da fé da igreja, mas também uma ética e uma conduta de vida. Se
para Jesus a “obra de Deus é acreditar n’Aquele que Ele enviou”, em cada
domingo da Quaresma e da Páscoa traremos para a nossa reflexão e oração, um dos
artigos do Credo Niceno-Constantinopolitano, oferecendo como caminhada
quaresmal e pascal uma autêntica catequese sobre o Símbolo da Fé da Igreja.
Mas, porque aquele que é capaz
de descobrir o tesouro da sua vida, não o pode guardar para si, a Quaresma e a
Páscoa só farão sentido como profissão e vivência da fé, se formos capazes de
sair de nós próprios, para testemunharmos aos outros esta mesma fé que de
Cristo recebemos. O sínodo sobre a evangelização, realizado há pouco mais de
três meses, recorda-nos que existimos como Igreja para sermos portadores de
boas notícias para o mundo de hoje. Assim, esta nossa caminhada quaresmal e
pascal estará profundamente ligada ao anúncio, porque, como nos escreveram os
nossos Bispos na Carta dos Bispos aos diocesanos do Porto: “sendo boa e
necessária a nossa presença na sociedade e na cultura, requer-se que ela seja
sustentada por uma fé verdadeiramente evangélica e eclesial, que não a deixe
definhar e diluir-se, tornando-se insignificante e, afinal, dispensável”.
II
- Imaginário da Caminhada Quaresmal e Pascal
Para melhor compreender e viver
a nossa proposta para a dinamização do tempo quaresmal e pascal, propomos às
crianças e adolescentes da catequese, a vivência de um imaginário, que nos
ajudará a concretizar as metas e os desafios a que nos propomos numa linguagem
mais agradável e acessível.
Inspirado no logótipo do Ano da
Fé, em que se sugere a Igreja como uma barca, cujo mastro principal é uma cruz
que suporta uma vela (trigrama de Jesus Salvador dos Homens), propomos como
imaginário, o mar.
Na Quaresma e Páscoa deste ano,
seremos autênticos marinheiros lançados no mar da fé, procurando ultrapassar as
tormentas que estas águas nos possam reservar, a fim de chegarmos a porto seguro.
A igreja é a barca em que nos abrigamos e em que, juntos e em comunhão, somos
capazes de navegar em alto mar.
A
fé é como um longo e profundo mar: podemos atravessá-lo e até desfrutar dos
seus benefícios e prazeres, mas para tal empreendimento, é necessário superar
as suas muitas dificuldades e tormentas. Em cada semana, identificaremos as
tormentas que o mar da fé esconde, e que não são mais que, os obstáculos e
dificuldades que o crente encontra na sua vida de fé e que podem representar
uma obstrução a uma conversão verdadeira a Jesus Cristo, Salvador dos Homens. Por
vezes, podemos sentir que “não temos pé” ou até sentirmo-nos à deriva em alto
mar, pois a vida na fé não se traduz em certezas absolutas e convicções
inabaláveis. Quem procura configurar a sua vida com a vida de Jesus, tem de
estar na disposição de correr riscos e optar por decisões radicais e
comprometedoras. Acreditar “n’Aquele que Ele enviou”, significa estar na
disposição da conversão diária, na configuração da vida, não às vontades
próprias de cada um, mas ao projeto libertador e redentor que Deus Pai tem para
os seus filhos. Por outro lado, sentimo-nos marinheiros audazes e corajosos,
porque não somos como aqueles que ficaram na praia, com o barco amarrado, e sem
vontade de descobrir o que se deslumbra no horizonte do mar. Desprendemo-nos
dos nossos próprios vícios e comodismos, abandonamos as nossas aparentes
seguranças e deixámos para trás a superficialidade da vida, para nos fazermos
ao largo (Cf. Lc 5, 4). Temos consciência que, navegar em alto mar, não é
tarefa fácil, mas acreditamos que não estamos sozinhos. A barca é a mesma para
todos, fazemo-lo com toda a Igreja, Corpo de Cristo, e alenta-nos o Espírito de
Deus, que com a força do seu vento nos impele para rotas cada vez mais
longínquas e eternas.
Somos
pequenas embarcações, frágeis e limitadas, que precisam de todas as forças para
poderem atravessar o gigantesco mar da fé. O mastro que sustenta a vela da
nossa barca é a cruz de Jesus Cristo, como sinal do sacrifício e da renúncia
próprias da vida cristã. A nossa vela, é o Credo, símbolo da Fé da Igreja e
herança que a Igreja primitiva nos deixou, e que o tempo e a história
aperfeiçoaram. Se navegamos com a Igreja, avançamos com mais segurança, pois a
sua história e tradição podem-nos fornecer instruções de navegação
verdadeiramente capazes de transformarem a nossa viagem, numa aventura mais
segura, capaz de nos fazer chegar a porto seguro. Em cada semana da Quaresma e
Páscoa deste Ano da Fé, receberemos as instruções de navegação para nossa
viagem, ou seja, pequenas ajudas e ferramentas inspiradas na liturgia de cada
semana, para todos aqueles que procuram alicerçar a sua vida em Cristo Jesus.
A
primeira escola da fé é sem dúvida a família. Nela se transmitem as verdades da
fé, e o credo é passado como herança que passa de pais para filhos. Assim,
também a família pode ser esta barca a enfrentar o poderoso mar da fé. As
dificuldades e os obstáculos são uma presença constante, mas todos juntos e
unidos serão capazes de as ultrapassar e chegar a bom porto. A voz dos mais
velhos guia os mais pequenos a atingirem a meta, ultrapassando as inúmeras
tormentas que a vida reserva.
Jesus
Cristo, crucificado e ressuscitado é o nosso porto seguro, a nossa meta. Não
poderemos atracar a nossa barca enquanto a Ele não chegarmos, enquanto não
formos capazes de O deslumbrar, face a face, num encontro íntimo e verdadeiro.
Mas quem
descobre Jesus, quem, de verdade, encontra n’Ele uma possibilidade de vida nova
e felicidade, não pode guardar para si tamanho tesouro. Há-que anunciar aos
outros a rota marítima para chegarmos a este porto seguro e fazermos descer a
âncora da nossa embarcação. No mar, há uma maneira muito simples de comunicar
com quem ainda está em
terra. Basta colocar uma mensagem numa garrafa de vidro. As
ondas e agitação deste mar da fé, encarregar-se-ão de encontrar um destinatário
para a mensagem.
Sobe
para bordo. Boa Viagem!
III.
Um símbolo
Para
proporcionar o envolvimento de todos, apresentamos um símbolo comunitário,
presente nas igrejas onde celebramos os domingos da Quaresma e Páscoa deste Ano
da Fé. Unimo-nos num símbolo que é a barca, imagem da Igreja, para que seja
visível por toda a comunidade que há um caminho a percorrer e que este se vai
construindo ao longo do tempo. Além de acompanhar a comunidade paroquial na
Quaresma e na Páscoa, este símbolo poderá também servir como elemento referente
ao Ano da Fé e poderá ser mantido até ao seu encerramento.
Cada
comunidade deverá construir e colocar em local de destaque da Igreja uma barca,
semelhante à que aparece no logótipo do Ano da Fé. Sugerimos que a construção
da barca seja levada a cabo pelos vários grupos de catequese. Para o efeito
poderá ser realizada uma catequese conjunta com os vários anos de catequese,
onde se aproveitará para apresentar a proposta da dinâmica quaresmal e pascal,
apresentar os propósitos e desafios do Ano da Fé e explicar o significado dos
elementos que compõe o logótipo do Ano da fé. (Oportunamente será disponibilizado no site do SDEC material para a
realização desta catequese).
Para a
construção da barca poderão ser utilizados materiais diversos, como madeira,
cartão grosso, cartolina, esferovite, metal ou plástico. (Será também
disponibilizado no site do SDEC um projeto/maquete para a construção da barca
com as medidas aconselháveis e dicas para a sua construção). Depois de
construída e pintada, deverá ser inscrito na barca o lema desta caminhada:
“Crer n’Aquele que Ele enviou” (Jo 6, 29)
O mastro da
barca deverá ser uma cruz de madeira, símbolo da morte e ressurreição de Jesus.
Ela é também símbolo da salvação! Na cruz tudo se faz possível. A morte dá
lugar à vida, a desolação ao sofrimento, desespero à esperança.
A
vela deverá ser construída a partir de um pano branco, onde todas as semanas,
se escreverá um dos artigos do Credo, conforme tabela sinopse desta caminhada
quaresmal e pascal. Prenda-se a vela enrolada ao mastro da nossa barca, de modo
a que, todas as semanas, seja possível soltar um pouco da vela. Assim a vela
vai desfraldando-se à medida que as semanas vão passam, para que, na Solenidade
de Pentecostes, esteja toda aberta e seja possível ler todos os artigos do
Credo. Nesse dia, a nossa barca estará finalmente pronta a rumar em segurança e
a alta velocidade, porque capaz de acolher todo o vento força e força do
Espírito Santo.
IV.
Dois ritmos, a mesma viagem
Para
a nossa dinâmica quaresmal e pascal, apresentamos dois ritmos/tempos para a sua
vivência: viagem comunitária, aquele que percorreremos em comunidade, todos os
domingos nas nossas Eucaristias e com o nosso grupo de catequese; e viagem com
a família, aquela parte da viagem em que navegamos na companhia da nossa
família. A dinâmica quaresmal e pascal que aqui apresentamos só fará sentido se
for levada para casa, se o anúncio de Cristo Ressuscitado chegar às famílias
das nossas comunidades e, se estas, se tornarem também anúncio e testemunho da
fé professada e vivida. Os catequistas e os catequizandos são os responsáveis
por esta tarefa. Em ambos, os ritmos/tempo de vivência da comunidade, não será
esquecida aquela parte da viagem em que, cada um se isola e descobre no
silêncio para um encontro íntimo e pessoal com o Deus em que acreditamos e
anunciamos. Assim, ter-se-á a preocupação de oferecer pistas para a reflexão
pessoal de cada um, capazes de ajudarem à conversão quotidiana e permanente que
“Acreditar n’Aquele que Ele enviou” implica e exige.
A)
Viagem
em comunidade
A Barca
Como atrás já propusemos, quando nos referíamos ao grande
símbolo desta dinâmica, cada comunidade paroquial é convidada a construir na
sua Igreja, uma barca, símbolo da própria comunidade e da Igreja que se lança
em viagem pelo grande mar da vida na fé.
Em
cada semana, na Eucaristia dominical, no momento mais oportuno que a comunidade
encontrar, será lida uma pequena admonição, onde se fará a ligação entre o
artigo do credo escolhido para a semana e a Liturgia da Palavra de cada
domingo. Nesta altura, deverá ser desamarrada a vela da nossa barca, de modo
que se torne visível o artigo do Credo escolhido para a semana.
O Diário de Bordo
Propomos
que cada grupo de catequese, reserve um tempo dos seus encontros semanais, para
a construção do seu diário de bordo. Aqui serão registados todos os momentos
importantes desta grande aventura pelo mar da fé. Em cada semana, deverá ser
preparado um excerto dos textos da Liturgia da Palavra, assim como o artigo do
Credo a trabalhar, a fim de serem colados no diário. Aqui dever-se-á registar
as respostas às questões e desafios lançados, assim como, os ecos que chegam da
vivência da dinâmica em família.
Este diário será a oportunidade do
catequista motivar os seus catequizandos para esta viagem marítima, podendo-o
decorar com fotografias do grupo e da comunidade paroquial. Será também o
pretexto de desenvolver nos catequizandos o sentido de pertença à comunidade,
tomando consciência de um itinerário partilhado com os outros. A partilha é um
elemento essencial à vida alicerçada na fé.
B)
Viagem
em família
A mensagem
A catequese e toda a comunidade paroquial é
convidada a unir esforços para que seja possível envolver as famílias na
dinamização da Quaresma e do Tempo Pascal.
Propomos que as famílias sejam convidadas a
procurar uma garrafa de vidro transparente e uma rolha de cortiça para isolar o
seu interior.
Todas as famílias dos catequizandos devem
ser convidadas a participar na Eucaristia de Quarta-feira de Cinzas, onde se
assinalará o início da nossa viagem. Nesse dia, a família deverá aproximar-se
junta do sacerdote para que, juntos possam receber nas suas frontes, a cinza
que nos recorda a miséria e a fragilidade humana. Nessa altura, o sacerdote
colocará na garrafa da família um pouco de cinza. Recordar-nos-á que a nossa
viagem é também marcada pelas nossas limitações e pelo pecado.
A família é também convidada a preparar uma
pequena folha (semelhante a um papiro) que enrolará e amarrará para que caiba
dentro da garrafa. Todas as semanas, depois de um pequeno momento de reflexão e
oração, a família é convidada a escrever nessa folha o artigo do credo da
semana, para nos recordar que a família é a primeira escola da fé, e que nela,
as verdades da fé são transmitidas como uma herança que passa de geração em
geração, como sempre aconteceu em toda a história da Igreja. Para melhor se
compreender esta missão que vem desde a Igreja primitiva, as orações propostas
para a vivência familiar da nossa dinâmica, são da autoria de várias figuras da
Igreja, ligadas aos diversos Símbolos de Fé que a História da Igreja nos deixou
em herança.
A garrafa que a família escolher para colocar
o papiro, pode, também, ser o local ideal para guardar as respostas da família
às questões lançadas em cada semana, assim como os compromissos escolhidos para
o cumprimento das Instruções de navegação.
Na Solenidade de Pentecostes, quando
finalmente todo o Credo estiver escrito no “papiro”, a nossa garrafa será
possuidora de uma mensagem extraordinária de um valor incalculável. Chega,
então, a altura da família ser capaz de transmitir a fé que professa, cumprindo
a sua missão evangelizadora. Neste dia, poderão ser organizadas algumas
atividades, em que, a família é convidada a entregar a famílias que ainda não
vivem de forma séria e comprometida a sua fé, a garrafa e a mensagem que ela
contém.



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